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	<title>Talk:2, &#187; turba</title>
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		<title>Uniban e gestão de crises pós-Internet</title>
		<link>http://www.talk2.com.br/debate/o-que-a-uniban-deveria-saber-sobre-gerenciamento-de-crises-pos-internet/</link>
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		<pubDate>Mon, 09 Nov 2009 12:58:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliano.spyer</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Duas coisas parecem não fazer sentido em relação ao caso Geyse-Uniban: 1) uma instituição educacional optando por leiloar sua reputação acobertando um crime supostamente justificado pelo machismo. 2) o movimento de mulheres tomando o partido de uma jovem que aparentemente tinha ou tem intenção de se tornar modelo e ajudar a alimentar o machismo condenado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Duas coisas parecem não fazer sentido em relação ao <a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2009/11/07/uniban+expulsa+aluna+hostilizada+por+usar+vestido+curto+9042025.html" target="_blank">caso Geyse-Uniban</a>: 1) uma instituição educacional optando por leiloar sua reputação acobertando um crime supostamente justificado pelo machismo. 2) o movimento de mulheres tomando o partido de uma jovem que aparentemente tinha ou tem intenção de se tornar modelo e ajudar a alimentar o machismo condenado no episódio.</p>
<p>A equação não fecha, os argumentos parecem incoerentes. Estamos todos entusiasmados para ver a Uniban ser apedrejada publicamente por uma atitude que, a princípio, a maior parte das empresas toma ou tomaria, que é: defender seus clientes e optar por ter menos dor de cabeça apostando que eventuais notícias negativas não se espalhariam. Errou por não considerar um fator novo no ecossistema informacional: a Internet, uma ferramenta de baixo custo para a comunicação grupal e interativa.</p>
<p><strong>O que a Uniban poderia aprender com o Papa</strong></p>
<p>É esclarecedor usar como referência um caso semelhante de crise enfrentado pela Igreja Católica nos Estados Unidos relatado pelo teórico de mídia <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Clay_Shirky" target="_blank">Clay Shirky</a> em seu livro <a href="http://www.google.com/search?q=here+comes+everybody&amp;ie=utf-8&amp;oe=utf-8&amp;aq=t&amp;rls=org.mozilla:en-US:official&amp;client=firefox-a" target="_blank">Here Comes Everybody</a>.</p>
<p>Em 1992 o Boston Globe publicou uma denúncia sobre a Igreja acobertando um padre pedófilo por 40 anos. O resultado é que o padre é preso, mas a notícia morre e as coisas continuam como estão. Dez anos depois, o mesmo jornal publica uma reportagem idêntica denunciando outro padre pelo mesmo motivo. O resultado: a Igreja se submete ao <a href="http://www.boston.com/globe/spotlight/abuse/" target="_blank">maior processo de revisão</a> motivado por fatores externos de sua história recente. Dezenas de casos vêm a público e o Vaticano aceita a renúncia do cardeal arcebispo de Boston.</p>
<p>A diferença de um caso para outro, Clay explica, é que houve uma redução nos custos de coordenação e comunicação graças à internet. Em 1992, o leitor escandalizado com a denúncia do Boston Globe teria que protestar usando enviando cópias xerox das reportagens por carta ou fax. Em 2002, o conteúdo havia saído do papel e se tornado digital. O assunto, antes restrito à cidade, se torna notícia no mundo e demonstrar indignação vira um ato tão simples quando copiar e colar links em emails e blogs.</p>
<p>Shirky observa os dois casos ocorridos em Boston usando como referência a maneira como epidemias se alastram. Para se avaliar o risco de uma epidemia, leva-se em consideração: risco de contágio, risco de contato e tamanho da população. A queda radical no custo de coordenação e comunicação de 1992 para 2002 expandiram o risco de contato entre pessoas e também o tamanho da população que ficava sabendo e passou a acompanhar a evolução do caso.</p>
<p><strong>A Uniban fez o que outras empresas fariam</strong></p>
<p>O caso da Geysi é parecido com o da Igreja em Boston no sentido em que há 10 anos, essa situação provavelmente teria morrido depois de alguns dias. É como os responsáveis pela comunicação da Uniban parecem ter raciocinado: &#8220;vamos ter um grande problema se resolvermos punir 700 de nossos estudantes que de alguma maneira participaram da agressão. É mais fácil resolver essa situação tomando o partido dos agressores, que são muitos, contra a vítima. Preservaremos os alunos e se, por conta disso, tivermos que lidar com reportagens negativas durante duas semanas, é o menor preço a se pagar.</p>
<p>O caso poderia sair na imprensa &#8211; como saiu &#8211; e as pessoas reclamariam umas com as outras tomando café nas padarias ou nos pontos de ônibus, mas não haveria nada mais que a maioria delas poderia fazer em relação a isso. Telefonariam umas para as outras coordenando demonstrações na frente da Uniban? Agora o custo disso se resume a<a href="http://twitter.com/fernandosing/statuses/5557037716" target="_blank"> publicar uma mensagem</a> em um blog ou Twitter e deixar a internet fazer o resto do trabalho.</p>
<p>Se a equipe da Uniban soubesse que a notícia se tornaria mundial &#8211; via AP para <a href="http://www.nytimes.com/aponline/2009/11/08/world/AP-LT-Brazil-Short-Dress.html?_r=1" target="_blank">NYTimes</a>, <a href="http://www.guardian.co.uk/world/2009/nov/08/geisy-arruda-expelled-brazil-mini-skirt" target="_blank">Guardian</a> e <a href="http://www.huffingtonpost.com/2009/11/08/geisy-arruda-brazil-stude_n_350217.html" target="_blank">Huffington Post</a> &#8211; talvez eles tivessem pensado diferente. Afinal, trata-se de uma instituição acobertando um crime. E não qualquer instituição, uma instituição educacional. (&#8221;Que educação é essa da Uniban?&#8221;, alguns seguramente estão se perguntando.) E também não é qualquer crime: é violência contra a mulher. Fala-se, inclusive, que poderia ter se tornado um <a href="http://www.trezentos.blog.br/?p=3407" target="_blank">estupro coletivo</a>, não fosse pela intervenção de alguns poucos heróis que desafiaram a turba.</p>
<p>Agora os olhos do mundo estão atentos para ver o que a Justiça brasileira e o MEC têm a dizer em relação ao caso. Isso porque milhares de pessoas estão passando entre si os links para a matéria por suas contas de email, seus blogs, Twitter e ainda pela <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Universidade_Bandeirante_de_S%C3%A3o_Paulo" target="_blank">Wikipedia</a>.</p>
<p><strong>Protesto 2.0, censura 2.0 e a Internet que merecemos</strong></p>
<p>Talvez soe meio corporativo demais tratar um caso como esse do ponto de vista da gestão de crises. O meu argumento &#8211; registrado <a href="http://www.slideshare.net/jspyer/verdades-e-meias-verdades-sobre-o-poder-da-internet" target="_blank">nesta apresentação</a> &#8211; é que a Internet, em si, não transforma a sociedade, ela amplifica suas características. Cultivamos uma visão romântica e muitas vezes ingênua da Rede como solução de todos os males, como se a disponibilidade de conexão e equipamentos de acesso necessariamente promvem a liberdade de expressão e compartilhamento e, consequentemente, levam a democracia à sociedade. Falamos, por exemplo, da Internet como principal responsável pelo fenômeno Obama, sem mencionar que ela foi apenas a catalisadora, a precipitadora das forças que já existiam dentro da sociedade.</p>
<p>O pensador <a href="http://twitter.com/Evgenymorozov" target="_blank">Yvgeny Mozorov</a> tem falado constantemente de <a href="http://neteffect.foreignpolicy.com/posts/2009/10/15/anne_frank_balloon_boy_slacktivism" target="_blank">slacktivism</a> &#8211; que eu traduzi como &#8220;apativismo&#8221; &#8211; e do novo fenômeno da censura 2.0. Ele fala que os governos autoritários já entenderam &#8211; fora Cuba, que continua <a href="http://www.desdecuba.com/generaciony/" target="_blank">tentando censurar Yoani Sanchez</a> &#8211; que censurar agora produz mais barulho do que antes e, por isso, estão aplicando <a href="http://www.ted.com/talks/evgeny_morozov_is_the_internet_what_orwell_feared.html" target="_blank">técnicas de censura 2.0</a>. Isso se traduz na seguinte estratégia: vale mais a pena &#8220;abrir&#8221; o diálogo e participar dele usando blogueiros treinados para criar ruído na conversa. E como a sociedade não está preparada para reagir e se organizar, voltamos a alcançar o resultado esperado, que é a resolução do problema para o lado melhor organizado.</p>
<p>A ironia dessa situação é ver feministas sendo <a href="http://www.abril.com.br/noticias/brasil/movimento-mulheres-marca-protesto-uniban-591673.shtml" target="_blank">levadas a tomar partido</a> de uma jovem que, pelo visto, não tem nada de feminista. Ao contrário, se o oráculo do Twitter estiver certo &#8211; veja <a href="http://twitter.com/marinamc/statuses/5557030715" target="_blank">aqui</a>, <a href="http://twitter.com/keigiro/statuses/5556997604" target="_blank">aqui</a>, <a href="http://twitter.com/joaoperigolo/statuses/5556907949" target="_blank">aqui</a> e <a href="http://twitter.com/fabioflorez/statuses/5556745026" target="_blank">aqui</a>, para citar só alguns dos links da <a href="http://twitter.com/#search?q=uniban%20playboy" target="_blank">primeira página</a> dos resultados de busca -, a Geyse logo estará na capa de uma das revistas masculinas do país &#8211; quem sabe até em outros países &#8211; reforçando a cultura machista que é apontada como motivadora do problema.</p>
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