Radialistas fazem coberturas alternativas com o Gengibre
Ontem rolou a gravação ao vivo do podcast com o Cazé Peçanha. Foi um malabarismo gambiarrístico misturar todos os sistemas de voz, mensagens deixadas no Gengibre com a nossa conversa via Skype (com diferenças de captação de microfone), sem contar o streaming do audio. Ainda assim o resultado ficou muito bacana. (Não sei se vai dar para editar e por no ar hoje, mas é um dos itens prioritários da lista.)
Logo no esquenta, que é o tempinho antes da entrevista começar, o Cazé relembrou a história dele, a época que ganhava a vida como professor de inglês no Rio e participava da cena de poetas da cidade. Falou da experiência de se apresentar em um hospital psiquiátrico e de como aquilo foi gratificante, de como uma platéia com menos amarras recebe a poesia. E ele nos presenteou recitando um poema.
O assunto principal da conversa foi o Gengibre, um serviço parecido com o Twitter mas que funciona com voz. Na semana passada uma nova versão do Gengibre foi ao ar, trazendo uma série de melhorias, como a possibilidade de criar comunidades. O Cazé anunciou os detalhes. E partimos para um experimento: usamos o Gengibre para receber participações de pessoas que não poderiam acompanhar da transmissão ao vivo.
Uma dessas mensagens queria saber sobre usos inesperados do Gengibre e o Cazé se lembrou de pessoas com algum problema de saúde que, ao invés de ficarem atendendo chamadas de amigos e parentes, deixavam “boletins médicos” no serviço. Assim eles não se desgastavam explicando e reexplicando sua situação e as pessoas acompanhavam a situação.
Para mim, a parte mais interessante e surpreendente foi a situação contrária e que parece ser uma tendência nova e forte no Gengibre: radialistas profissionais de meios importantes começam a usar a ferramenta para produzir conteúdo próprio. A lógica é simples: eles já vão fazer as coberturas, mas o espaço que eles têm geralmente é reduzido, o conteúdo aproveitado tende a ser pequeno, eles poderiam aproveitar muito mais a situação, e é o que começa a acontecer.
Vanessa Ruiz da CBN/Globo, Victor Birner da CBN e Conrado Giulietti da Eldorado/ESPM – coincidentemente todos envolvidos com a cobertura esportiva – aproveitam suas pautas para produzir conteúdo original e postar isso em seus blogs. Olha que “subversão” boa: a ponte no sentido da democratização da produção de conteúdo sendo construída não só pelo amador mas também pelo profissional que, apesar de estar dentro do veículo, não tem toda a liberdade, nem de pauta nem de tempo.
Vale conferir. E escrevendo isso me lembrei de outra passagem da conversa. Perguntaram ao Cazé sobre como ele escolhia desenvolver um certo produto para internet e ele respondeu que aquilo – nem o Gafanhoto nem o Gengibre – não tinha sido planejado originalmente para ser um negócio, começaram por causa da vontade dele de ser menos espectador e mais ator (no sentido de quem age) na internet.
Ele disse: – Fazer TV é muito mais legal do que assistir e eu queria também fazer internet.
Essa idéia merece atenção. A internet é isso: fazer. Nesse momento falar de participação e colaboração talvez soe como chavão, mas quando a gente pensa nisso, geralmente não se dá conta de como essa passagem do conforto do sofá/controle remoto para a cadeira/teclado é difícil, desconfortável, implica em encarar uma curva de aprendizado, fazer coisas toscas e ir descobrindo as manhas, as técnicas, ativamente.
É isso que acontece, por exemplo, no Gengibre, com o surgimento – espontaneo e independente – de personagens como Capitão Sarcasmo, Capitão Óbvio e Garoto Pleonasmo. São amadores “tinkering” (mexendo, bulindo, experimentando) com a tecnologia de maneira descompromissada e fazendo coisas originais, interessantes. O TalkShow é uma brincadeira nessa linha hacker – alguém que interfere, altera, no sentido literal da palavra.
Por conta do já citado excesso de fontes de audio, o som desse TalkShow ficou pior do que o das experiencias anteriores, mas vai dar para melhorar isso na edição do podcast.
