A vida sem celular: um auto-estudo de caso
Ontem o meu celular faleceu. Literalmente. E digo “faleceu” porque não houve causa aparente que justifique a falta súbita de sinais vitais. Não caiu no chão, não molhou, nem foi exposto a temperaturas extremas. Do nada ele teve o que poderia ser chamado de convulsão e morreu.
Foi assim
Eu estava na praça de alimentação de um aeroporto passando o tempo até a hora de embarque. O aparelho tremeu indicando a chegada de SMS. Tentei acessar a mensagem mas o sistema travou, a tela ficou estática. Até aí, normal, já tinha acontecido antes. O procedimento padrão era tirar a bateria, recolocá-la e apertar o botãozinho de liga. Mas dessa vez não ligou.
Insisti, continuei insistindo e nada, nenhuma iluminação de tela ou som para me fazer acreditar que aquilo era “apenas um susto”. Intimamente eu sentia que o aparelho tivesse sofrido o correspondente digital de um AVC ou de um ataque cardíaco fuminante e que não voltaria a funcionar sem ajuda profissional e algum transplante de peça.
Um corpo sem espírito
É estranho falar em “espírito” referindo-se a um celular, mas não encontro metáfora melhor para representar o que tinha lá dentro. Era espiritual, primeiro, por não ser palpável, material, não estar fisicamente presa aos componentes do aparelho. O que existia ali, existia pela circulação contínua de corrente elétrica.
Mas era espiritual por outro motivo também. Era parte da minha vida, uma extensão dela. Ele me ligava de alguma maneira a todas as pessoas que eu conheço e me relaciono. Essa informação vivia ali, assim como as fotos e vídeos que eu registrava com regularidade pelo aparelho.
Matrix mobile
Uma coisa curiosa de não ter celular é ter visto pela primeira vez como o celular invadiu a vida das pessoas. Como eu não tinha o meu celular para me fazer companhia, acabei “forçado” a olhar para os lados e prestar atenção nas pessoas. E fiquei espantado ao notar que praticamente a metade das pessoas no saguão do aeroporto estava mergulhada em seus aparelhos.
Alguns passaram o dia em reunião ou participando de algum treinamento e aproveitavam o tempo para triar as mensagens de email acumuladas e responder as mais urgentes. Outros provavelmente acompanhavam as conversas no Twitter, liam e respondiam SMSs, experimentavam aplicativos, jogavam ou checavam pela Internet o clima da cidade para onde estavam indo.
O fato é que boa parte das pessoas sentadas nas cadeiras do saguão de embarque se encontravam na mesma posição, com as mãos na altura da barriga, segurando o aparelho e a cabeça curvada para baixo. Pareciam hiponotizadas ou transportadas para outro mundo… dentro do Matrix?
Da negação à abstinência
Ainda não aceitei a morte do telefone, mas, naquele momento, no aeroporto, me conformei silenciosamente com o ocorrido e até pensei que talvez aquilo não seria o fim do mundo, mas não demorou para eu sentir sintomas de crise de abstinência.
Ao chegar em São Paulo, minha grande preocupação é que minha mulher tentasse e não conseguisse falar comigo. E eu não podia avisá-la porque, além de não ter telefone, também não sabia o número dela – que sempre esteve na memória do aparelho.
Chegando em casa, me lembrei que precisava acordar cedo, mas cadê meu despertador? Era também o celular. E tive que ir até a cozinha para saber as horas.
Ontem um amigo mandou um email dizendo que precisava falar comigo e pedindo o meu número. Posso passar o número do escritório, o da minha casa, mas teremos que combinar uma hora para ele telefonar, como fazíamos “antigamente”, lembra? Isso caiu em desuso na medida em que a maioria leva seus telefones no bolso.
Na garantia (eu acho)
Hoje pela manhã, a primeira coisa que eu fiz ao levantar – depois de escovar os dentes – foi pegar a caixa do meu telefone. Me felicitei mentalmente por ter a prática de guardar as caixas dos aparelhos eletrônicos junto com as notas fiscais. E descobri algo no mínimo curioso: comprei o telefone em 3 de outubro do ano passado, há exatos 364 dias, logo, há esperança dele ainda estar coberto pela garantia.
Só que surgiu um porém. O período de garantia é de “09 (nove) meses para o aparelho celular e acessórios incluídos no pacote do aparelho celular, adicionalmente aos três meses da garantia legal”. Quer dizer 12 meses, certo? Vou descobrir e depois conto.
Sem Life-stream
Fora acessar a internet (email, Twitter, buscas, resultados de jogos), como outros heavy-users, o celular tem para mim uma finalidade particular. Uso-o para registrar a vida e fiz disso uma rotina mental. Olho para coisas me perguntando se vale uma foto (eventualmente um video) e o processo de publicação é automático do aparelho para a Internet e para o Twitter.
Não é um BBB porque eu não publico fotos minhas, nem fotos pessoais. É, talvez, a parte de mim que me levou ao Departamento de História da USP quando eu nem sabia direito o que queria fazer da vida. Registro o que vejo e me chama a atenção, num processo muito pessoal e despretencioso de me comunicar com outras pessoas. Meio, talvez, como uma versão 2.0 da pintura rupestre. Uma necessidade sem propósito explícito.
Isso vai fazer falta.
Independente de tudo, me ocorreu um pensamento apocalíptico: e se, por algum motivo, eu perdesse também a conexão à Internet?
O Kevin Kelly, um dos mestres Jedi do tecno-utopismo, escreveu em um de seus livros que criaríamos tanta dependência da Web que ela seria uma extensão de nossa memória; logo, estar desconectado seria parecido com sofrer uma lobotomia. Mas, aparentemente, alguém já pensou nisso e encontrou uma solução, de maneira que podemos dormir tranquilos.
