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Um novo jornalismo no The Guardian

guardian logo Um novo jornalismo no The GuardianThe Guardian, o respeitado diário inglês, resolveu considerar o conteúdo gerado pelos seus leitores como parte de sua política editorial. Com isso, abre caminho para uma revolução tardia no jornalismo online, que ainda luta para encontrar um papel social em um mundo virtual cada vez mais participativo e onde a linha que divide produção e consumo de conteúdo praticamente desapareceu.

Chamada open jounalism, jornalismo aberto, esta nova forma de reportar notícias conta com a participação ativa dos leitores desde a concepção das matérias até sua publicação.

Para divulgar a iniciativa, o diário produziu o vídeo abaixo mostrando como seria sua cobertura da fábula dos Três Porquinhos dentro da nova linha editorial.

 

O passado

Décadas de padronização de linguagem e forma produziram uma relativa calmaria no reino da imprensa no começo dos anos 90; isso até uma nova ferramenta de comunicação chamada internet começar a se popularizar. Nas redações se olhava para ela com desconfiança. Editores mantinham olhos e ouvidos abertos para saber em quê aquilo ia impactar a produção jornalística; ao mesmo tempo, os jovens estudantes das faculdades de comunicação, empolgados com esse novo universo de possibilidades, já discutiam a criação de uma nova linguagem capaz de informar naquele novo meio. Falavam inclusive em um novo paradigma de comunicação.

Se não migraram totalmente para a rede, os jornais – que começaram a perder leitores das suas versões impressas – criaram redações inteiras para produzir conteúdo para suas versões na web. Manuais de redação começaram a contemplar esse meio criando, aqui e ali, alguns padrões diferenciados de texto. Nada muito revolucionário, no entanto. A vida da imprensa seguiu, todos dormiam tranquilos.

Essa tranquilidade durou até o surgimento das redes sociais, da possibilidade de compartilhamento de conteúdo e, indo mais longe, da abertura geral para que os internautas pudessem comentar a respeito das informações publicadas em sites, prática que virou padrão na maioria das publicações online.

Criou-se um problema: essa abertura a comentários tomou um vulto muito além do esperado. Não foram poucos os casos em que os leitores se tornaram críticos ferrenhos seja do texto em si (linguagem e formatação), seja da posição ideológica – explícita ou velada – do veículo ou dos seus colaboradores.

Alguns sites reagiram reduzindo a possibilidade de interação dos leitores, tirando a área de comentários em textos com conteúdo mais aberto à polêmica.

A revolução começou?

Enquanto a maioria dos jornais ainda queima neurônios para descobrir como sobreviver em um mundo onde leitores querem cada vez mais o status de produtores de conteúdo, o Guardian resolveu ir na contramão.

Essa nova linha editorial leva em conta – e depende – da participação direta dos leitores, não mais só nos comentários, mas alimentando a redação com informações testemunhais, fotos e vídeos que ilustram os fatos;  outros pontos de vista, enfim. A estratégia envolve inclusive a abertura da pauta diária – que define os assuntos a serem tratados no dia – em uma página pública, aberta a sugestões e colaborações.

Se é difícil prever o impacto dessa inovação no futuro do jornalismo, é possível especular sobre pelo menos uma vantagem imediata.

O que era prática comum nas redações da velha imprensa – botar o pé na rua, buscar e apurar pautas – virou artigo raro nas redações web. Os novos jornalistas têm que lidar com um meio extremamente dinâmico, onde é raro se ter a oportunidade de um aprofundamento “in loco” das pautas.

Com a colaboração dos leitores, especialmente aqueles que testemunharam e registraram os fatos, a tendência é que as pautas do Guardian ganhem em conteúdo e humanidade.