A era do ornitorrinco – o mashup e o uso de bibliotecas na produção de interfaces

Na fábrica celestial de animais, muito parecida com ambientes de desenvolvimento terrenas, um engenheiro de novos animais estava meio acabrunhado por ter levado uma bronca divina. Isso porque fazia algum tempo que ele não emplacava um animalzinho sequer na fauna terrestre. Todos os seus projetos acabavam sendo implantados em plutão, aquele planeta recheado de animais feitos por sobrinhos dos clientes.

Mas o nosso engenheiro estava ali, com uma demanda da Austrália e nenhuma inspiração. Na verdade ele não concordava muito com essa história de ter que reinventar a pata a todo projeto. Isso levava anos e o esforço era tremendo.

Um pouco por desespero de ver seu dead-line chegando, um pouco por uma visão que nem ele percebera que tinha, resolveu aproveitar qualidades que via em vários animais de sucesso que andavam por aí.

Seu novo bicho teria que ser peludo, assim ele ficaria aquecido. Mas não poderia ser um pelo qualquer, tem que ser resistente à água, tipo o pelo do castor. Então aproveitou e inseriu a cauda do castor que é super-prática para assentar os gravetos na relva e nas beiras dos rios, vai servir para ajustar um ninho.

Por falar em ninho, por que não um bico, como das aves? Se ele teria que ficar nos rios australianos, esse bico poderia ser muito útil, desde que seja um bico chato como de um pato. Do pato viria também as membranas entre os dedos adaptadas às patas de castor do seu novo projeto. Agora ele vai nadar melhor que o castor!

Se usaria o castor como modelo, é melhor que ele seja desenvolvido numa plataforma mamífera. Mas aí ele teria um problema, o bicho é aquático, grande parte do tempo, como faria com seus filhoes? Ele não ficaria adequado se fosse cetácio com aquele corpo baleióide e não teria o inverno para a gestação dos animais desenvolvidos para o cliente europeu. Os australianos simplesmente não aceitam hibernação.

Foi aí que ele viu que um projeto mashup tem que ter seu ingrediente de criatividade. Mesmo que aproveite componentes bem aceitos no mercado, ele deverá estar adequado às necessidades e particularidades do seu cliente.

Depois de umas duas tardes nesse dilema, veio a iluminação: apesar da plataforma mamífera, ele colocaria ovos e talvez os chocasse ainda no período de gestação. Ele ouvira falar que isso deu certo com o projeto tubarão, só que na plataforma de peixes, que já vinha com ovos na sua arquitetura. Teria que mexer no modelo de dados, talvez criar uma camada intermediária, substituir a placenta pelo vitelo e testar, sem teste não dá para entregar o projeto com segurança.

Só faltava um item para o seu bicho ficar pronto para o uso: a segurança, obsessão de Tasmânia, figura influente no cliente australiano. Mas também só faltava um hora para a entrega. Não teve jeito, teria que ser um item poderoso de defesa e, no mercado animal, o veneno era o que estava no topo dos mecanismos de defesa. Novamente, o choque com a moderna, mas restrita plataforma mamífera. Outra adaptação, dessa vez aproveitando que as unhas são de queratina, que é um componente comum a quase todas as plataformas e é só publicar.

Assim nasceu o ornitorrinco, o bichinho mais mashup que existe.