22 NOV 2009
19:24 GMT -0200

Angústias de uma nova era

Por Bila Amorim

A discussão sobre a economia do conhecimento tem se ampliado. Cada vez mais é comum se debater este termo em eventos e dentro das empresas. Porém, não podemos dizer que seja um conceito novo.

A primeira vez que o termo foi cunhado foi em 1966, pelo bom e velho Peter Drucker. Hoje, a economia do conhecimento é reconhecida como a terceira era da economia. A primeira foi a agrária, onde o poder estava nas mãos dos proprietários de terra. A segunda foi a era industrial, caracterizada pelo poder centralizado nas mãos de quem produzia bens de capital. E a terceira é a do conhecimento.

E aí entra a questão que é ponto central nesta revolução e que deixa empresas e intermediadores sem saber como continuar produzindo, vendendo, controlando e lucrando. E o que quero compartilhar, trocar idéia com vocês e – talvez – chegar a alguma conclusão (que óbvio, utilizei esta palavra mas reconheço a breve sobrevida dela)  é o seguinte:

nas duas eras anteriores o gerador de capital era algo sobre o qual alguém podia se apropriar legalmente, ter um papel comprovando a posse daquele bem. E era único. Se eu vender minha fábrica de parafusos ou minha fazenda para você, ela deixa de ser minha e passa a ser sua. Mas quando se trata de conhecimento isso muda, pois se eu compartilho meu conhecimento com você, nós dois somos “detentores” dele agora. Pelo menos de algo bem similar, pois o conhecimento é diferente para cada pessoa, uma vez que o conhecimento é informação processada e este processamento depende da sua experiência de vida e seus conhecimentos anteriores (isso a grosso modo, pois o conceito de conhecimento é algo que continua sendo bastante debatido e não pretendo entrar nesta seara).

E isso muda bastante coisa, pois estamos migrando de uma economia em que os bens poderiam ser divididos ou transferidos para uma economia baseada em algo que pode ser compartilhado, talvez seja melhor dizer: multiplicado.

É essa característica, associada às novas tecnologias que vem sendo desenvolvidas nos últimos 40 anos, que permite um fenômeno como o sucesso dos players do tecnobrega no Pará. Imagino que todos já conheçam o case, mas segue um resumo para quem não conhece: os produtores da música produzem em estúdios caseiros, fazem as cópias e vendem diretamente para os ambulantes de rua, que vendem pilhas e pilhas dos cds. É um negócio milionário que excluiu a gravadora do modelo. Observe que os cds vendidos pelos ambulantes não são piratas, pois foram cedidos por quem tem o direito (os músicos).

Outro caso interessante é o vivenciado pelo economista Ladislau Dowbor no lançamento do seu livro Democracia Econômica. O livro foi disponibilizado online no mesmo dia em que foi enviado para a editora. A editora levou mais de um ano para colocar um pouco mais de 1.000 exemplares na rua. Quando o livro finalmente chegou às livrarias, a versão online já tinha sido baixada mais de 8.000 vezes.

Como esses teríamos centenas, provavelmente, de exemplos para citar. Quero chamar atenção para outro ponto: o interessante nos casos de “baixar” algo pela web – e aí entra a segunda camada de multiplicação, como estou chamando – é que quando baixo algo da web, eu não elimino o recurso do seu local de origem. Ou seja, se compro um livro na livraria, ele sai de lá e vem para mim. Se baixo pela web, ele permanece no local de origem, mas está também agora em minha máquina. Ou seja, não apenas o bem de produção (conhecimento) pode ser multiplicado, como o produto. No entanto, este é apenas mais um ponto.

Há outros, que andam confundindo as pessoas, mas principalmente as empresas. Nem comecei a falar ainda do knowledge worker, que deixa de ser visto como custo e passa a ser ativo.  Vou deixar pra próxima. ;)

beijos, tchau.

Duas coisas parecem não fazer sentido em relação ao caso Geyse-Uniban: 1) uma instituição educacional optando por leiloar sua reputação acobertando um crime supostamente justificado pelo machismo. 2) o movimento de mulheres tomando o partido de uma jovem que aparentemente tinha ou tem intenção de se tornar modelo e ajudar a alimentar o machismo condenado no episódio.

A equação não fecha, os argumentos parecem incoerentes. Estamos todos entusiasmados para ver a Uniban ser apedrejada publicamente por uma atitude que, a princípio, a maior parte das empresas toma ou tomaria, que é: defender seus clientes e optar por ter menos dor de cabeça apostando que eventuais notícias negativas não se espalhariam. Errou por não considerar um fator novo no ecossistema informacional: a Internet, uma ferramenta de baixo custo para a comunicação grupal e interativa.

O que a Uniban poderia aprender com o Papa

É esclarecedor usar como referência um caso semelhante de crise enfrentado pela Igreja Católica nos Estados Unidos relatado pelo teórico de mídia Clay Shirky em seu livro Here Comes Everybody.

Em 1992 o Boston Globe publicou uma denúncia sobre a Igreja acobertando um padre pedófilo por 40 anos. O resultado é que o padre é preso, mas a notícia morre e as coisas continuam como estão. Dez anos depois, o mesmo jornal publica uma reportagem idêntica denunciando outro padre pelo mesmo motivo. O resultado: a Igreja se submete ao maior processo de revisão motivado por fatores externos de sua história recente. Dezenas de casos vêm a público e o Vaticano aceita a renúncia do cardeal arcebispo de Boston.

A diferença de um caso para outro, Clay explica, é que houve uma redução nos custos de coordenação e comunicação graças à internet. Em 1992, o leitor escandalizado com a denúncia do Boston Globe teria que protestar usando enviando cópias xerox das reportagens por carta ou fax. Em 2002, o conteúdo havia saído do papel e se tornado digital. O assunto, antes restrito à cidade, se torna notícia no mundo e demonstrar indignação vira um ato tão simples quando copiar e colar links em emails e blogs.

Shirky observa os dois casos ocorridos em Boston usando como referência a maneira como epidemias se alastram. Para se avaliar o risco de uma epidemia, leva-se em consideração: risco de contágio, risco de contato e tamanho da população. A queda radical no custo de coordenação e comunicação de 1992 para 2002 expandiram o risco de contato entre pessoas e também o tamanho da população que ficava sabendo e passou a acompanhar a evolução do caso.

A Uniban fez o que outras empresas fariam

O caso da Geysi é parecido com o da Igreja em Boston no sentido em que há 10 anos, essa situação provavelmente teria morrido depois de alguns dias. É como os responsáveis pela comunicação da Uniban parecem ter raciocinado: “vamos ter um grande problema se resolvermos punir 700 de nossos estudantes que de alguma maneira participaram da agressão. É mais fácil resolver essa situação tomando o partido dos agressores, que são muitos, contra a vítima. Preservaremos os alunos e se, por conta disso, tivermos que lidar com reportagens negativas durante duas semanas, é o menor preço a se pagar.

O caso poderia sair na imprensa – como saiu – e as pessoas reclamariam umas com as outras tomando café nas padarias ou nos pontos de ônibus, mas não haveria nada mais que a maioria delas poderia fazer em relação a isso. Telefonariam umas para as outras coordenando demonstrações na frente da Uniban? Agora o custo disso se resume a publicar uma mensagem em um blog ou Twitter e deixar a internet fazer o resto do trabalho.

Se a equipe da Uniban soubesse que a notícia se tornaria mundial – via AP para NYTimes, Guardian e Huffington Post – talvez eles tivessem pensado diferente. Afinal, trata-se de uma instituição acobertando um crime. E não qualquer instituição, uma instituição educacional. (”Que educação é essa da Uniban?”, alguns seguramente estão se perguntando.) E também não é qualquer crime: é violência contra a mulher. Fala-se, inclusive, que poderia ter se tornado um estupro coletivo, não fosse pela intervenção de alguns poucos heróis que desafiaram a turba.

Agora os olhos do mundo estão atentos para ver o que a Justiça brasileira e o MEC têm a dizer em relação ao caso. Isso porque milhares de pessoas estão passando entre si os links para a matéria por suas contas de email, seus blogs, Twitter e ainda pela Wikipedia.

Protesto 2.0, censura 2.0 e a Internet que merecemos

Talvez soe meio corporativo demais tratar um caso como esse do ponto de vista da gestão de crises. O meu argumento – registrado nesta apresentação – é que a Internet, em si, não transforma a sociedade, ela amplifica suas características. Cultivamos uma visão romântica e muitas vezes ingênua da Rede como solução de todos os males, como se a disponibilidade de conexão e equipamentos de acesso necessariamente promvem a liberdade de expressão e compartilhamento e, consequentemente, levam a democracia à sociedade. Falamos, por exemplo, da Internet como principal responsável pelo fenômeno Obama, sem mencionar que ela foi apenas a catalisadora, a precipitadora das forças que já existiam dentro da sociedade.

O pensador Yvgeny Mozorov tem falado constantemente de slacktivism – que eu traduzi como “apativismo” – e do novo fenômeno da censura 2.0. Ele fala que os governos autoritários já entenderam – fora Cuba, que continua tentando censurar Yoani Sanchez – que censurar agora produz mais barulho do que antes e, por isso, estão aplicando técnicas de censura 2.0. Isso se traduz na seguinte estratégia: vale mais a pena “abrir” o diálogo e participar dele usando blogueiros treinados para criar ruído na conversa. E como a sociedade não está preparada para reagir e se organizar, voltamos a alcançar o resultado esperado, que é a resolução do problema para o lado melhor organizado.

A ironia dessa situação é ver feministas sendo levadas a tomar partido de uma jovem que, pelo visto, não tem nada de feminista. Ao contrário, se o oráculo do Twitter estiver certo – veja aqui, aqui, aqui e aqui, para citar só alguns dos links da primeira página dos resultados de busca -, a Geyse logo estará na capa de uma das revistas masculinas do país – quem sabe até em outros países – reforçando a cultura machista que é apontada como motivadora do problema.

Sou fã declarado do Adrian Ho, japinha da Zeus Jones, uma pequena empresa de marketing de Minneapolis.
Já era fã antes de conhece-lo pessoalmente no encontro do grupo de planejamento em dezembro do ano passado em São Paulo ( ocasião em que ele falou para um auditório com cerca de 400 planners das maiores agências brasileiras que o planejamento – e o modelo de negócio das agências – de hoje é inútil, e que não conseguia entender porque 400 pessoas inteligentes não conseguiam perceber isso. )

O que o Adrian defende é que temos que nos apropriar dos ativos “operacionais” das empresas e desenvolver ações de marketing e comunicação em cima desses ativos. Parece um conceito complexo, mas não é. Já falei disso antes e este post é para apresentar um dos últimos trabalhos deles, explicado no vídeo abaixo:

No post original você pode conhecer detalhes desta ação, mas o trabalho apresentado é resultado tangível de um “planejamento criativo” fundamentado em pesquisa e observação:

- O planner com certeza pesquisou e observou bastante o comportamento dos potenciais usuários dentro da loja;
- Um elemento cultural, que parece óbvio, foi aproveitado e intensificado: garotas gostam de se expressar, de tirar fotos nas cabines de troca e compartilhar entre amigas.

A tecnologia envolvida é apenas “o caminho” para a experiência. Mesmo sem a Microsoft Surface, grande parte desta experiência poderia ser realizada e compartilhada. O importante mesmo é criar ( ou recriar ) serviços úteis para os consumidores.  Cada vez mais, planejamento é observação, experimentação e ação.