Duas coisas parecem não fazer sentido em relação ao caso Geyse-Uniban: 1) uma instituição educacional optando por leiloar sua reputação acobertando um crime supostamente justificado pelo machismo. 2) o movimento de mulheres tomando o partido de uma jovem que aparentemente tinha ou tem intenção de se tornar modelo e ajudar a alimentar o machismo condenado no episódio.

A equação não fecha, os argumentos parecem incoerentes. Estamos todos entusiasmados para ver a Uniban ser apedrejada publicamente por uma atitude que, a princípio, a maior parte das empresas toma ou tomaria, que é: defender seus clientes e optar por ter menos dor de cabeça apostando que eventuais notícias negativas não se espalhariam. Errou por não considerar um fator novo no ecossistema informacional: a Internet, uma ferramenta de baixo custo para a comunicação grupal e interativa.

O que a Uniban poderia aprender com o Papa

É esclarecedor usar como referência um caso semelhante de crise enfrentado pela Igreja Católica nos Estados Unidos relatado pelo teórico de mídia Clay Shirky em seu livro Here Comes Everybody.

Em 1992 o Boston Globe publicou uma denúncia sobre a Igreja acobertando um padre pedófilo por 40 anos. O resultado é que o padre é preso, mas a notícia morre e as coisas continuam como estão. Dez anos depois, o mesmo jornal publica uma reportagem idêntica denunciando outro padre pelo mesmo motivo. O resultado: a Igreja se submete ao maior processo de revisão motivado por fatores externos de sua história recente. Dezenas de casos vêm a público e o Vaticano aceita a renúncia do cardeal arcebispo de Boston.

A diferença de um caso para outro, Clay explica, é que houve uma redução nos custos de coordenação e comunicação graças à internet. Em 1992, o leitor escandalizado com a denúncia do Boston Globe teria que protestar usando enviando cópias xerox das reportagens por carta ou fax. Em 2002, o conteúdo havia saído do papel e se tornado digital. O assunto, antes restrito à cidade, se torna notícia no mundo e demonstrar indignação vira um ato tão simples quando copiar e colar links em emails e blogs.

Shirky observa os dois casos ocorridos em Boston usando como referência a maneira como epidemias se alastram. Para se avaliar o risco de uma epidemia, leva-se em consideração: risco de contágio, risco de contato e tamanho da população. A queda radical no custo de coordenação e comunicação de 1992 para 2002 expandiram o risco de contato entre pessoas e também o tamanho da população que ficava sabendo e passou a acompanhar a evolução do caso.

A Uniban fez o que outras empresas fariam

O caso da Geysi é parecido com o da Igreja em Boston no sentido em que há 10 anos, essa situação provavelmente teria morrido depois de alguns dias. É como os responsáveis pela comunicação da Uniban parecem ter raciocinado: “vamos ter um grande problema se resolvermos punir 700 de nossos estudantes que de alguma maneira participaram da agressão. É mais fácil resolver essa situação tomando o partido dos agressores, que são muitos, contra a vítima. Preservaremos os alunos e se, por conta disso, tivermos que lidar com reportagens negativas durante duas semanas, é o menor preço a se pagar.

O caso poderia sair na imprensa – como saiu – e as pessoas reclamariam umas com as outras tomando café nas padarias ou nos pontos de ônibus, mas não haveria nada mais que a maioria delas poderia fazer em relação a isso. Telefonariam umas para as outras coordenando demonstrações na frente da Uniban? Agora o custo disso se resume a publicar uma mensagem em um blog ou Twitter e deixar a internet fazer o resto do trabalho.

Se a equipe da Uniban soubesse que a notícia se tornaria mundial – via AP para NYTimes, Guardian e Huffington Post – talvez eles tivessem pensado diferente. Afinal, trata-se de uma instituição acobertando um crime. E não qualquer instituição, uma instituição educacional. (”Que educação é essa da Uniban?”, alguns seguramente estão se perguntando.) E também não é qualquer crime: é violência contra a mulher. Fala-se, inclusive, que poderia ter se tornado um estupro coletivo, não fosse pela intervenção de alguns poucos heróis que desafiaram a turba.

Agora os olhos do mundo estão atentos para ver o que a Justiça brasileira e o MEC têm a dizer em relação ao caso. Isso porque milhares de pessoas estão passando entre si os links para a matéria por suas contas de email, seus blogs, Twitter e ainda pela Wikipedia.

Protesto 2.0, censura 2.0 e a Internet que merecemos

Talvez soe meio corporativo demais tratar um caso como esse do ponto de vista da gestão de crises. O meu argumento – registrado nesta apresentação – é que a Internet, em si, não transforma a sociedade, ela amplifica suas características. Cultivamos uma visão romântica e muitas vezes ingênua da Rede como solução de todos os males, como se a disponibilidade de conexão e equipamentos de acesso necessariamente promvem a liberdade de expressão e compartilhamento e, consequentemente, levam a democracia à sociedade. Falamos, por exemplo, da Internet como principal responsável pelo fenômeno Obama, sem mencionar que ela foi apenas a catalisadora, a precipitadora das forças que já existiam dentro da sociedade.

O pensador Yvgeny Mozorov tem falado constantemente de slacktivism – que eu traduzi como “apativismo” – e do novo fenômeno da censura 2.0. Ele fala que os governos autoritários já entenderam – fora Cuba, que continua tentando censurar Yoani Sanchez – que censurar agora produz mais barulho do que antes e, por isso, estão aplicando técnicas de censura 2.0. Isso se traduz na seguinte estratégia: vale mais a pena “abrir” o diálogo e participar dele usando blogueiros treinados para criar ruído na conversa. E como a sociedade não está preparada para reagir e se organizar, voltamos a alcançar o resultado esperado, que é a resolução do problema para o lado melhor organizado.

A ironia dessa situação é ver feministas sendo levadas a tomar partido de uma jovem que, pelo visto, não tem nada de feminista. Ao contrário, se o oráculo do Twitter estiver certo – veja aqui, aqui, aqui e aqui, para citar só alguns dos links da primeira página dos resultados de busca -, a Geyse logo estará na capa de uma das revistas masculinas do país – quem sabe até em outros países – reforçando a cultura machista que é apontada como motivadora do problema.

Ontem o meu celular faleceu. Literalmente. E digo “faleceu” porque não houve causa aparente que justifique a falta súbita de sinais vitais. Não caiu no chão, não molhou, nem foi exposto a temperaturas extremas. Do nada ele teve o que poderia ser chamado de convulsão e morreu.

Foi assim

Eu estava na praça de alimentação de um aeroporto passando o tempo até a hora de embarque. O aparelho tremeu indicando a chegada de SMS. Tentei acessar a mensagem mas o sistema travou, a tela ficou estática. Até aí, normal, já tinha acontecido antes. O procedimento padrão era tirar a bateria, recolocá-la e apertar o botãozinho de liga. Mas dessa vez não ligou.

Insisti, continuei insistindo e nada, nenhuma iluminação de tela ou som para me fazer acreditar que aquilo era “apenas um susto”. Intimamente eu sentia que o aparelho tivesse sofrido o correspondente digital de um AVC ou de um ataque cardíaco fuminante e que não voltaria a funcionar sem ajuda profissional e algum transplante de peça.

Um corpo sem espírito

É estranho falar em “espírito” referindo-se a um celular, mas não encontro metáfora melhor para representar o que tinha lá dentro. Era espiritual, primeiro, por não ser palpável, material, não estar fisicamente presa aos componentes do aparelho. O que existia ali, existia pela circulação contínua de corrente elétrica.

Mas era espiritual por outro motivo também. Era parte da minha vida, uma extensão dela. Ele me ligava de alguma maneira a todas as pessoas que eu conheço e me relaciono. Essa informação vivia ali, assim como as fotos e vídeos que eu registrava com regularidade pelo aparelho.

Matrix mobile

Uma coisa curiosa de não ter celular é ter visto pela primeira vez como o celular invadiu a vida das pessoas. Como eu não tinha o meu celular para me fazer companhia, acabei “forçado” a olhar para os lados e prestar atenção nas pessoas. E fiquei espantado ao notar que praticamente a metade das pessoas no saguão do aeroporto estava mergulhada em seus aparelhos.

Alguns passaram o dia em reunião ou participando de algum treinamento e aproveitavam o tempo para triar as mensagens de email acumuladas e responder as mais urgentes. Outros provavelmente acompanhavam as conversas no Twitter, liam e respondiam SMSs, experimentavam aplicativos, jogavam ou checavam pela Internet o clima da cidade para onde estavam indo.

O fato é que boa parte das pessoas sentadas nas cadeiras do saguão de embarque se encontravam na mesma posição, com as mãos na altura da barriga, segurando o aparelho e a cabeça curvada para baixo. Pareciam hiponotizadas ou transportadas para outro mundo…  dentro do Matrix?

Da negação à abstinência

Ainda não aceitei a morte do telefone, mas, naquele momento, no aeroporto, me conformei silenciosamente com o ocorrido e até pensei que talvez aquilo não seria o fim do mundo, mas não demorou para eu sentir sintomas de crise de abstinência.

Ao chegar em São Paulo, minha grande preocupação é que minha mulher tentasse e não conseguisse falar comigo. E eu não podia avisá-la porque, além de não ter telefone, também não sabia o número dela – que sempre esteve na memória do aparelho.

Chegando em casa, me lembrei que precisava acordar cedo, mas cadê meu despertador? Era também o celular. E tive que ir até a cozinha para saber as horas.

Ontem um amigo mandou um email dizendo que precisava falar comigo e pedindo o meu número. Posso passar o número do escritório, o da minha casa, mas teremos que combinar uma hora para ele telefonar, como fazíamos “antigamente”, lembra? Isso caiu em desuso na medida em que a maioria leva seus telefones no bolso.

Na garantia (eu acho)

Hoje pela manhã, a primeira coisa que eu fiz ao levantar – depois de escovar os dentes – foi pegar a caixa do meu telefone. Me felicitei mentalmente por ter a prática de guardar as caixas dos aparelhos eletrônicos junto com as notas fiscais. E descobri algo no mínimo curioso: comprei o telefone em 3 de outubro do ano passado, há exatos 364 dias, logo, há esperança dele ainda estar coberto pela garantia.

Só que surgiu um porém. O período de garantia é de “09 (nove) meses para o aparelho celular e acessórios incluídos no pacote do aparelho celular, adicionalmente aos três meses da garantia legal”. Quer dizer 12 meses, certo? Vou descobrir e depois conto.

Sem Life-stream

Fora acessar a internet (email, Twitter, buscas, resultados de jogos), como outros heavy-users, o celular tem para mim uma finalidade particular. Uso-o para registrar a vida e fiz disso uma rotina mental. Olho para coisas me perguntando se vale uma foto (eventualmente um video) e o processo de publicação é automático do aparelho para a Internet e para o Twitter.

Não é um BBB porque eu não publico fotos minhas, nem fotos pessoais. É, talvez, a parte de mim que me levou ao Departamento de História da USP quando eu nem sabia direito o que queria fazer da vida. Registro o que vejo e me chama a atenção, num processo muito pessoal e despretencioso de me comunicar com outras pessoas. Meio, talvez, como uma versão 2.0 da pintura rupestre. Uma necessidade sem propósito explícito.

Isso vai fazer falta.

Independente de tudo, me ocorreu um pensamento apocalíptico: e se, por algum motivo, eu perdesse também a conexão à Internet?

O Kevin Kelly, um dos mestres Jedi do tecno-utopismo, escreveu em um de seus livros que criaríamos tanta dependência da Web que ela seria uma extensão de nossa memória; logo, estar desconectado seria parecido com sofrer uma lobotomia. Mas, aparentemente, alguém já pensou nisso e encontrou uma solução, de maneira que podemos dormir tranquilos. ;-)

Enquanto a maioria dos executivos do mundo paga por publicidade, Tony Hsieh, CEO da varejista online Zappos.com, é pago – e bem pago – para promover sua empresa em palcos de eventos corporativos mundo a fora. É que os bons resultados relacionados a práticas inovadoras de gestão o transformaram em palestrante disputado.

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