Augusto de Franco

Augusto de Franco

Na última quinta-feira o convidado do TalkShow foi Augusto de Franco, criador e primeiro netweaver da Escola-de-Redes.

Augusto tem um trabalho/militância que se diferencia por falar de redes sociais independente da Internet e das plataformas de comunicação digital e por entender que esses são recursos que servem para a transformação da sociedade.

Um dos palestrantes do TED São Paulo, Augusto é autor de 18 livros, entre os quais: “Capital Social”, “A revolução do local”, “Escola de Redes: Novas Visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a Internet, a política e o mundo glocalizado” e “Escola de Redes: Tudo que é sustentável tem o padrão de rede. Sustentabilidade empresarial e responsabilidade corporativa no século 21″

Ouça aqui o que rolou

Ontem o meu celular faleceu. Literalmente. E digo “faleceu” porque não houve causa aparente que justifique a falta súbita de sinais vitais. Não caiu no chão, não molhou, nem foi exposto a temperaturas extremas. Do nada ele teve o que poderia ser chamado de convulsão e morreu.

Foi assim

Eu estava na praça de alimentação de um aeroporto passando o tempo até a hora de embarque. O aparelho tremeu indicando a chegada de SMS. Tentei acessar a mensagem mas o sistema travou, a tela ficou estática. Até aí, normal, já tinha acontecido antes. O procedimento padrão era tirar a bateria, recolocá-la e apertar o botãozinho de liga. Mas dessa vez não ligou.

Insisti, continuei insistindo e nada, nenhuma iluminação de tela ou som para me fazer acreditar que aquilo era “apenas um susto”. Intimamente eu sentia que o aparelho tivesse sofrido o correspondente digital de um AVC ou de um ataque cardíaco fuminante e que não voltaria a funcionar sem ajuda profissional e algum transplante de peça.

Um corpo sem espírito

É estranho falar em “espírito” referindo-se a um celular, mas não encontro metáfora melhor para representar o que tinha lá dentro. Era espiritual, primeiro, por não ser palpável, material, não estar fisicamente presa aos componentes do aparelho. O que existia ali, existia pela circulação contínua de corrente elétrica.

Mas era espiritual por outro motivo também. Era parte da minha vida, uma extensão dela. Ele me ligava de alguma maneira a todas as pessoas que eu conheço e me relaciono. Essa informação vivia ali, assim como as fotos e vídeos que eu registrava com regularidade pelo aparelho.

Matrix mobile

Uma coisa curiosa de não ter celular é ter visto pela primeira vez como o celular invadiu a vida das pessoas. Como eu não tinha o meu celular para me fazer companhia, acabei “forçado” a olhar para os lados e prestar atenção nas pessoas. E fiquei espantado ao notar que praticamente a metade das pessoas no saguão do aeroporto estava mergulhada em seus aparelhos.

Alguns passaram o dia em reunião ou participando de algum treinamento e aproveitavam o tempo para triar as mensagens de email acumuladas e responder as mais urgentes. Outros provavelmente acompanhavam as conversas no Twitter, liam e respondiam SMSs, experimentavam aplicativos, jogavam ou checavam pela Internet o clima da cidade para onde estavam indo.

O fato é que boa parte das pessoas sentadas nas cadeiras do saguão de embarque se encontravam na mesma posição, com as mãos na altura da barriga, segurando o aparelho e a cabeça curvada para baixo. Pareciam hiponotizadas ou transportadas para outro mundo…  dentro do Matrix?

Da negação à abstinência

Ainda não aceitei a morte do telefone, mas, naquele momento, no aeroporto, me conformei silenciosamente com o ocorrido e até pensei que talvez aquilo não seria o fim do mundo, mas não demorou para eu sentir sintomas de crise de abstinência.

Ao chegar em São Paulo, minha grande preocupação é que minha mulher tentasse e não conseguisse falar comigo. E eu não podia avisá-la porque, além de não ter telefone, também não sabia o número dela – que sempre esteve na memória do aparelho.

Chegando em casa, me lembrei que precisava acordar cedo, mas cadê meu despertador? Era também o celular. E tive que ir até a cozinha para saber as horas.

Ontem um amigo mandou um email dizendo que precisava falar comigo e pedindo o meu número. Posso passar o número do escritório, o da minha casa, mas teremos que combinar uma hora para ele telefonar, como fazíamos “antigamente”, lembra? Isso caiu em desuso na medida em que a maioria leva seus telefones no bolso.

Na garantia (eu acho)

Hoje pela manhã, a primeira coisa que eu fiz ao levantar – depois de escovar os dentes – foi pegar a caixa do meu telefone. Me felicitei mentalmente por ter a prática de guardar as caixas dos aparelhos eletrônicos junto com as notas fiscais. E descobri algo no mínimo curioso: comprei o telefone em 3 de outubro do ano passado, há exatos 364 dias, logo, há esperança dele ainda estar coberto pela garantia.

Só que surgiu um porém. O período de garantia é de “09 (nove) meses para o aparelho celular e acessórios incluídos no pacote do aparelho celular, adicionalmente aos três meses da garantia legal”. Quer dizer 12 meses, certo? Vou descobrir e depois conto.

Sem Life-stream

Fora acessar a internet (email, Twitter, buscas, resultados de jogos), como outros heavy-users, o celular tem para mim uma finalidade particular. Uso-o para registrar a vida e fiz disso uma rotina mental. Olho para coisas me perguntando se vale uma foto (eventualmente um video) e o processo de publicação é automático do aparelho para a Internet e para o Twitter.

Não é um BBB porque eu não publico fotos minhas, nem fotos pessoais. É, talvez, a parte de mim que me levou ao Departamento de História da USP quando eu nem sabia direito o que queria fazer da vida. Registro o que vejo e me chama a atenção, num processo muito pessoal e despretencioso de me comunicar com outras pessoas. Meio, talvez, como uma versão 2.0 da pintura rupestre. Uma necessidade sem propósito explícito.

Isso vai fazer falta.

Independente de tudo, me ocorreu um pensamento apocalíptico: e se, por algum motivo, eu perdesse também a conexão à Internet?

O Kevin Kelly, um dos mestres Jedi do tecno-utopismo, escreveu em um de seus livros que criaríamos tanta dependência da Web que ela seria uma extensão de nossa memória; logo, estar desconectado seria parecido com sofrer uma lobotomia. Mas, aparentemente, alguém já pensou nisso e encontrou uma solução, de maneira que podemos dormir tranquilos. ;-)

Desde que comecei a trabalhar na indústria da internet, avalio a eficácia de produtos e serviços de uma maneira simples, mas que dá resultado: eu me pergunto se eu me interessaria por aquilo genuinamente se fosse um mero usuário, sem relação com o projeto.

Esse é um processo fácil mas que exige treinamento. Acho que ele é parecido com o exercício que jornalistas aprendem a fazer, que é estar sempre pensando se uma informação rende notícia. Já presenciei isso algumas vezes. Na roda de amigos, mesmo fora do trabalho, um jornalista cutuca o outro e diz, referindo-se a um assunto determinado da conversa: – isso dá notícia.

Tenho a impressão – e é mera especulação o que vou dizer – que o profissional de marketing talvez não tenha o mesmo interesse em desenvolver essa capacidade de se transformar em consumidor, de se treinar para pensar como consumidor. Isso talvez ocorra porque até agora, na publicidade e no marketing, foi mais importante pensar como o cliente, aquele que contrata, e não como aquele que será o alvo da campanha.

O jornalista, especialmente aquele que trabalha em diários, põe sua intuição sobre o valor da notícia a prova continuamente, pelo feedback de leitores depois da publicação do jornal, e também ao defender suas propostas e as dos colegas em discussão durante as reuniões de pauta.

Bom, para variar, a Internet parece estar complicando a vida de quem estava acostumado a pensar só com a cabeça do cliente.

Antes, a percepção pública de uma campanha raramente se espalhava e se algo dava errado, isso talvez fosse percebido por meio de pesquisas de opinião e talvez fosse comentado entre profissionais da área, mas o assunto não emergia, não se disseminava. Hoje os consumidores estão cada vez mais conscientes de seu poder de influenciar a opinião de outras pessoas dentro de seu círculo de relacionamento e é por isso, por exemplo, que monitoramento de redes sociais se converteu em uma mina de outro para quem souber explorar seu potencial.

Uma das consequências do aumento do poder de comunicação do indivíduo é que campanhas ruins ou enganosas se tornam motivo de crítica e chacota pública. Não preciso citar exemplos para que você se lembre de empresas com credibilidade zero entre consumidores.

Nesse novo contexto, passa a valer a pena aprender com os jornalistas para propor aquilo que de fato servirá ou interessará ao consumidor, porque se isso não acontecer, ele vai falar o que pensa e você terá que correr atrás do prejuízo.