A tortura das letras
O destino (de repórter) me levou a Tóquio, ainda na década de 80, durante o milagre japonês. Bombardeado pelo fuso horário, cambaleando de dia e insone durante a noite de hotel, fui jogado na multidão que tentava entrar nos trens do metrô, às seis da tarde.

Éramos eu, com quase 1,90 de altura, meu guia no Japão, um ex-correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, onde trabalhávamos, e milhões de japoneses de terno e gravata olhando para nós como fôssemos replicantes do Blade Runner, filme adorado à época.
Logo que o trem começou a andar e deixamos de ser a atração principal do vagão, todos sacaram revistas, livros, panfletos ou o que fosse das bolsas e dos bolsos e começaram a ler.
Meu interlocutor olhou para mim e disse: “está vendo?”.
Para depois explicar; “quando cheguei aqui, não entendia porque as pessoas liam tanto, o tempo todo. Mas com o tempo descobri que a leitura para eles é um grande prazer, não só pelo que ela traz à mente, mas pela facilidade”.
Facilidade? Os japoneses, como a maioria da população da Terra, utilizam-se de ideogramas, símbolos gráficos que representam palavras ou conceitos abstratos, para ler. Mal comparando, é como ler o desenho de uma casa ao invés de ler a palavra casa.
Legal, não é?
Não sabemos qual dos nossos antepassados inventou a escrita, mas credita-se aos romanos a confecção do nosso mal-tratado alfabeto.
Você que me lê precisa se esforçar, primeiro para entender o meu texto (desculpem se escrevo mal) e, ainda por cima, decifrar estas dezenas de letras que não fazem sentido para um recém nascido, um analfabeto ou um japonês.
Trata-se de um esforço enorme, primeiro para decifrar estes caracteres, e depois para entender do que eu estou falando.
O resultado é que, na leitura através do alfabeto romano, sempre existe um delay, aquela demora de milésimos de segundos que a gente sente nas ligações telefônicas internacionais.Ou seja, é um processo demorado, onde a mente tem de se acostumar à profundidade do texto, esquecer outros pensamentos que, desculpe a repetição, vêem à mente.
Assim, para nós, ocidentais, ler dá trabalho, o resultado de 2 + 2 pode não ser quatro, traz informações à nossa preguiçosa cabeça que, às vezes, não está preparada para recebê-las.
Daí a paixão de todo mundo pelo vídeo. A TV, como o rádio, já roubou bilhões de leitores desde os anos 50, e agora está sofrendo de seu próprio veneno. O The Wall Street Journal desta semana diz que os americanos assistiram 300 milhões de vídeos no You Tube apenas em dezembro último. O tempo dedicado a assistir vídeos aumentou 34% no ano passado.
Não quero ser mais um menestrel do final da escrita, mesmo porque adoro ler e vivo, em parte, do ofício de escrever.
Mas de vez em quanto, quanto estou no meio daquele livro chato que preciso ler, absorto em outros pensamentos que não tem nada a ver com aquele livro, fico pensando se não está na hora de reinventarmos a nossa escrita. Quem sabe algo visual, como as placas de “pare”, que ninguém respeita, ou os símbolos que costumamos reconhecer nos aeroportos para ir ao banheiro ou tomar um café.
Poderíamos contratar um consultor japonês (ou chinês) para nos ajudar.
